O cotidiano é feito de coisas. A coisa é a realidade na sua
materialidade imediata. A representação das coisas pela consciência é o objeto.
Essa representação é feita por meio de conceitos, ideias e significados.
A consciência é sujeito do conhecimento, sendo o
conhecimento construído pela consciência através da percepção, memória,
imaginação, vontade, pensamento, etc.
Por volta do ano 500 A.C., nas colônias gregas as condições
de vida estavam em transformação, devido à revolução econômica representada
pela adoção do regime monetário. A moeda, facilitando as trocas, fortalecia
econômica e socialmente aqueles que viviam do comércio, da navegação e do artesanato.
Neste contexto, manifestaram-se novas formas de pensamento
racional, que não partiam da tradição mítica, mas de realidades apreendidas na
experiência humana cotidiana. Surgiram, então, as primeiras concepções
científicas e filosóficas da cultura ocidental que coordenavam racionalmente os
dados da experiência sensível.
Pitágoras de Samos e seus seguidores conceberam o universo,
a partir de fundamentos matemáticos, como um campo em que se contrapõe o Mesmo
(identidade) e o Outro (alteridade), estabelecendo para os diferentes níveis da
realidade uma tábua de opostos que manifestam a oposição observada entre os
números ímpares (identidade) e pares (alteridade), por exemplo: Finito e
infinito; Ímpar e par; Unidade e multiplicidade; À direita e à esquerda; Macho
e fêmea; Repouso e movimento; Reto e curvo; Luz e obscuridade; Bem e mal; Quadrado
e retângulo.
As categorias biológicas (macho/fêmea), as espaciais
(esquerda/direita) e as éticas (bem/mal) seriam variações da oposição
fundamental que determinaria a existência das unidades numéricas: a oposição
entre o finito e o infinito.
Parmênides de Eléia formulou explicitamente o princípio
lógico-ontológico da identidade: "O que é, é - e não poderia deixar de
ser". O ser é idêntico, imóvel, eterno, finito, imutável, pleno, contínuo,
homogêneo e indivisível.
Porém, os caracteres da imutabilidade, imobilidade e unidade
contrariavam frontalmente a percepção dos sentidos que vêm o mundo de coisas
diversas, móveis e mutáveis. Mas, para Parmênides, o real é o pensamento,
idêntico, imutável, e o aparente é o movimento, aquilo que muda. Se as coisas
mudam, elas não podem ser pensadas, de forma que o movimento é a ilusão dos
sentidos.
Heráclito de Éfeso, por outro lado, enfatiza o caráter
mutável da realidade formulando o problema da unidade permanente do ser diante
da pluralidade das coisas particulares e transitórias. O que os sentidos
mostram é ilusório, porque vê-se o estável e tudo está em movimento: um homem
não se banha duas vezes num mesmo rio, porque, na segunda vez, não é o mesmo
rio e nem é o mesmo homem, pois ambos já se modificaram. Para Heráclito, o real
é aquilo que muda, o movimento, sendo que o aparente é o idêntico, o imutável.
Pitágoras, Heráclito e Parmênides, conhecidos como filósofos
pré-socráticos estavam preocupados com a observação racional da realidade, com
a identidade, com as diferenças e com o movimento (transformações).
Dentro desse contexto de reflexão sobre o movimento e a
natureza estática dos conceitos que Julian Baggini faz a sua provocação: Existe
um verdadeiro você?
Nós temos um núcleo, uma essência? Existe algo sobre o que
significa ser você, que te define, e parece permanente e imutável. Se há esse
núcleo, podemos classificar as pessoas em categorias conforme os estilos de
amar, ou de trabalhar, ou de aprender. Logo, podemos dizer que você é um tipo
de pessoa ou outro tipo, como por exemplo os signos do zodíaco.
Essa é uma ideia de senso comum que existe um tipo de núcleo
ou essência de nós mesmos a ser descoberto. Algo do tipo verdade permanente que
não muda ao longo da vida.
Bem, essa é a ideia que Julian quer desafiar. Não existe
realmente um "você" por trás dessas experiências. Estranho, não?
O que existe, então?
Bem, existem, sem dúvida, memórias, desejos, intenções,
sensações, e assim por diante. Também existe uma narrativa, uma história sobre
nós mesmos, as experiências que temos quando lembramos do passado. Nós fazemos
coisas por causa de outras coisas. Então o que nós desejamos é em parte
resultado de nossas crenças, e o que nós lembramos é aquilo que podemos dizer que
sabemos.
A questão pode ser colocada da seguinte forma: Você é um ser
permanente, que tem experiências, ou são as experiências que fizeram você um
ser, ou seja você é uma coleção de experiências.
Julian coloca o exemplo de um relógio.
Podemos dizer que um relógio tem uma face, ponteiros, um
mecanismo e uma bateria, O que quer dizer? O relógio é a soma das suas partes.
Então, por que nós seríamos diferentes?
Nós nos enxergamos como de alguma forma sendo uma coleção de
partes, mas também sendo uma entidade permanente e separada que tem essas
partes.
Então, se for verdade, que para cada um de nós não existe um
núcleo pessoal permanente, nenhuma essência permanente, isso significa que o “eu”
é uma ilusão? Isso significa que nós não existimos de verdade? Não existe um
você verdadeiro?
De volta ao relógio. O relógio não é uma ilusão, mesmo que
não haja nada no relógio além de uma coleção de suas peças. Igualmente, nós
também não somos ilusões.
Julian apresenta uma metáfora, a das Cataratas do Iguaçu.
Na cachoeira as águas estão sempre fluindo e a catarata está
sempre se modificando. Mas não significa que as Cataratas do Iguaçu são uma
ilusão. Não significa que não é real. Significa que a cachoeira é algo que tem
uma história, tem coisas que a mantém íntegra, mas em processo, fluindo, sempre
mudando.
Para Julian, essa metáfora é um modelo libertador.
Porque, se você acha que tem essa essência fixa e
permanente, que não muda, ao longo da vida, não importa o que aconteça, você
está em uma armadilha.
Você nasce com uma essência, e você é isso até morrer, e se você
acredita em vida após a morte, talvez você continue.
Mas se você se enxerga como sendo, de certa forma, não algo
em si, mas um tipo de processo, algo que se modifica, então é liberador.
Se você pode se modificar, de certa forma, você pode ser o
que quiser. É óbvio que há limites para o que nós podemos alcançar. Há limites
para o que podemos fazer de nós mesmos. Mas, de qualquer forma, nós temos essa
capacidade de nos moldarmos. O que você está fazendo, ao menos em parte, é na
verdade criando o seu verdadeiro ser.
Voltando aos filósofos Parmênides e Heráclito.
Para Parmênides, o real é o pensamento, idêntico, imutável,
e o aparente é o movimento, aquilo que muda. Se as coisas mudam, elas não podem
ser pensadas, de forma que o movimento é a ilusão dos sentidos. Esse seria o
seu eu verdadeiro. O ser imutável, porém, escravizado.
Para Heráclito o real é aquilo que muda, o movimento, sendo assim,
libertador, pois sempre há a possibilidade de transformação, de criação ou de
inovação. “Um homem não se banha duas vezes num mesmo rio”.
Volte ao vídeo, pense e responda: quem é você?