domingo, 2 de agosto de 2015

Quem sou eu?

O cotidiano é feito de coisas. A coisa é a realidade na sua materialidade imediata. A representação das coisas pela consciência é o objeto. Essa representação é feita por meio de conceitos, ideias e significados.

A consciência é sujeito do conhecimento, sendo o conhecimento construído pela consciência através da percepção, memória, imaginação, vontade, pensamento, etc.

Por volta do ano 500 A.C., nas colônias gregas as condições de vida estavam em transformação, devido à revolução econômica representada pela adoção do regime monetário. A moeda, facilitando as trocas, fortalecia econômica e socialmente aqueles que viviam do comércio, da navegação e do artesanato.

Neste contexto, manifestaram-se novas formas de pensamento racional, que não partiam da tradição mítica, mas de realidades apreendidas na experiência humana cotidiana. Surgiram, então, as primeiras concepções científicas e filosóficas da cultura ocidental que coordenavam racionalmente os dados da experiência sensível.

Pitágoras de Samos e seus seguidores conceberam o universo, a partir de fundamentos matemáticos, como um campo em que se contrapõe o Mesmo (identidade) e o Outro (alteridade), estabelecendo para os diferentes níveis da realidade uma tábua de opostos que manifestam a oposição observada entre os números ímpares (identidade) e pares (alteridade), por exemplo: Finito e infinito; Ímpar e par; Unidade e multiplicidade; À direita e à esquerda; Macho e fêmea; Repouso e movimento; Reto e curvo; Luz e obscuridade; Bem e mal; Quadrado e retângulo.

As categorias biológicas (macho/fêmea), as espaciais (esquerda/direita) e as éticas (bem/mal) seriam variações da oposição fundamental que determinaria a existência das unidades numéricas: a oposição entre o finito e o infinito.

Parmênides de Eléia formulou explicitamente o princípio lógico-ontológico da identidade: "O que é, é - e não poderia deixar de ser". O ser é idêntico, imóvel, eterno, finito, imutável, pleno, contínuo, homogêneo e indivisível.

Porém, os caracteres da imutabilidade, imobilidade e unidade contrariavam frontalmente a percepção dos sentidos que vêm o mundo de coisas diversas, móveis e mutáveis. Mas, para Parmênides, o real é o pensamento, idêntico, imutável, e o aparente é o movimento, aquilo que muda. Se as coisas mudam, elas não podem ser pensadas, de forma que o movimento é a ilusão dos sentidos.

Heráclito de Éfeso, por outro lado, enfatiza o caráter mutável da realidade formulando o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade das coisas particulares e transitórias. O que os sentidos mostram é ilusório, porque vê-se o estável e tudo está em movimento: um homem não se banha duas vezes num mesmo rio, porque, na segunda vez, não é o mesmo rio e nem é o mesmo homem, pois ambos já se modificaram. Para Heráclito, o real é aquilo que muda, o movimento, sendo que o aparente é o idêntico, o imutável.

Pitágoras, Heráclito e Parmênides, conhecidos como filósofos pré-socráticos estavam preocupados com a observação racional da realidade, com a identidade, com as diferenças e com o movimento (transformações).

Dentro desse contexto de reflexão sobre o movimento e a natureza estática dos conceitos que Julian Baggini faz a sua provocação: Existe um verdadeiro você?




Nós temos um núcleo, uma essência? Existe algo sobre o que significa ser você, que te define, e parece permanente e imutável. Se há esse núcleo, podemos classificar as pessoas em categorias conforme os estilos de amar, ou de trabalhar, ou de aprender. Logo, podemos dizer que você é um tipo de pessoa ou outro tipo, como por exemplo os signos do zodíaco.

Essa é uma ideia de senso comum que existe um tipo de núcleo ou essência de nós mesmos a ser descoberto. Algo do tipo verdade permanente que não muda ao longo da vida.

Bem, essa é a ideia que Julian quer desafiar. Não existe realmente um "você" por trás dessas experiências. Estranho, não?

O que existe, então?

Bem, existem, sem dúvida, memórias, desejos, intenções, sensações, e assim por diante. Também existe uma narrativa, uma história sobre nós mesmos, as experiências que temos quando lembramos do passado. Nós fazemos coisas por causa de outras coisas. Então o que nós desejamos é em parte resultado de nossas crenças, e o que nós lembramos é aquilo que podemos dizer que sabemos.

A questão pode ser colocada da seguinte forma: Você é um ser permanente, que tem experiências, ou são as experiências que fizeram você um ser, ou seja você é uma coleção de experiências.

Julian coloca o exemplo de um relógio.

Podemos dizer que um relógio tem uma face, ponteiros, um mecanismo e uma bateria, O que quer dizer? O relógio é a soma das suas partes. Então, por que nós seríamos diferentes?

Nós nos enxergamos como de alguma forma sendo uma coleção de partes, mas também sendo uma entidade permanente e separada que tem essas partes.

Então, se for verdade, que para cada um de nós não existe um núcleo pessoal permanente, nenhuma essência permanente, isso significa que o “eu” é uma ilusão? Isso significa que nós não existimos de verdade? Não existe um você verdadeiro?

De volta ao relógio. O relógio não é uma ilusão, mesmo que não haja nada no relógio além de uma coleção de suas peças. Igualmente, nós também não somos ilusões.

Julian apresenta uma metáfora, a das Cataratas do Iguaçu.

Na cachoeira as águas estão sempre fluindo e a catarata está sempre se modificando. Mas não significa que as Cataratas do Iguaçu são uma ilusão. Não significa que não é real. Significa que a cachoeira é algo que tem uma história, tem coisas que a mantém íntegra, mas em processo, fluindo, sempre mudando.

Para Julian, essa metáfora é um modelo libertador.
Porque, se você acha que tem essa essência fixa e permanente, que não muda, ao longo da vida, não importa o que aconteça, você está em uma armadilha.

Você nasce com uma essência, e você é isso até morrer, e se você acredita em vida após a morte, talvez você continue.

Mas se você se enxerga como sendo, de certa forma, não algo em si, mas um tipo de processo, algo que se modifica, então é liberador.

Se você pode se modificar, de certa forma, você pode ser o que quiser. É óbvio que há limites para o que nós podemos alcançar. Há limites para o que podemos fazer de nós mesmos. Mas, de qualquer forma, nós temos essa capacidade de nos moldarmos. O que você está fazendo, ao menos em parte, é na verdade criando o seu verdadeiro ser.

Voltando aos filósofos Parmênides e Heráclito.

Para Parmênides, o real é o pensamento, idêntico, imutável, e o aparente é o movimento, aquilo que muda. Se as coisas mudam, elas não podem ser pensadas, de forma que o movimento é a ilusão dos sentidos. Esse seria o seu eu verdadeiro. O ser imutável, porém, escravizado.

Para Heráclito o real é aquilo que muda, o movimento, sendo assim, libertador, pois sempre há a possibilidade de transformação, de criação ou de inovação. “Um homem não se banha duas vezes num mesmo rio”.


Volte ao vídeo, pense e responda: quem é você?

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