segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Sorte ou azar: Jogando cara ou coroa

Há coisas na vida que não são impossíveis, mas são improváveis, como por exemplo ganhar sozinho o prêmio acumulado da loteria ou morrer atingido por um raio. Nesses exemplos, podemos ver que existem conceitos como probabilidade, chance, acaso entre outros.

Qual a probabilidade de se ganhar uma aposta jogando uma moeda (cara ou coroa)? É de 50% ou matematicamente 1 vitória em cada 2 jogos.

Mais difícil é ganhar na roleta, que é um dos jogos mais antigos. Na roleta americana apostando-se em um número, a chance é de 2,63%, ou seja, 1 em 38 jogadas (Na roleta americana há 36 números mais o zero e o duplo zero)

Podemos dizer que ganhar na Loteca (1 em 2.391.485) ou na mega-sena (1 em 50.063.860) é possível, mas é improvável.

Como há quem ganhe nesses jogos de loteria, logo, a pergunta é por que coisas improváveis acontecem?

Uma resposta é que se trata de acaso. Acaso seria um fenômeno ou evento que acontece sem uma causa, ou seja, não relacionado com fenômenos ou eventos anteriores, nem regidos por algum tipo de lei.

Há quem duvide que o acaso exista, pois se diz que “nada acontece por acaso”.

Sorte ou azar?

Sorte é o acaso favorável, enquanto que azar é o acaso desfavorável. Azar seria o lado negativo da sorte.

Todos desejam sorte e fogem do azar. Porém, o acaso é o mesmo. Então por que às vezes temos sorte e às vezes azar?

Tudo depende do seu ponto de vista. Se você acredita em sorte ou azar, isso significa uma negação do acaso. O acaso, então, pode ser negado por influência de fenômenos inexplicáveis.

Por exemplo, para fazer um jogo de loteria é necessária uma escolha dos números. A escolha é resultado de uma decisão, e tal decisão pode estar sendo dirigida por uma força profética, por exemplo uma intuição, um sonho, uma premonição, ou pela crença de que “nada acontece por acaso.

Intuição

É um substantivo difícil de se definir. Há muitas definições e exemplos na internet. Mas podemos colocar, no âmbito desse artigo, que intuição é uma capacidade interna que permite fazer boas escolhas voltadas a um futuro desejado.

Todas as vezes que escolhemos estamos apostando que o escolhido vai trazer bons resultados, melhor que as opções ou alternativas que foram descartadas. Logo, decidimos e apostamos baseado nas nossas próprias crenças.

Escolhemos e apostamos todos os dias, já que qualquer coisa voltada ao futuro é uma probabilidade na medida em que o futuro não existe. O que existe, no lugar do futuro, são imaginações, planos, desejos, sonhos, previsões presentes de coisas futuras.

Por exemplo, quando se compra, em janeiro, um pacote de viagem ao exterior para 20 dias de férias em julho, estamos apostando que estaremos vivos e com boa saúde na época, que a viagem será excelente, que não haverá contratempos, que o dinheiro será suficiente, não haverá surpresas como doença, perda de malas, que retornaremos felizes e alegres e que tudo deu certo.

Essa expectativa é muito provável, mas não é certeza. Certeza só será possível depois que entrar em casa na volta. Aí a viagem acabou e não há mais riscos.

Dá para perceber que risco é o nome que se dá para um erro, mesmo que parcial, nas apostas. Também é possível observar que por mais que tomemos boas decisões, nem tudo está sob controle.

Há quem diga que o planejamento e a intuição servem para minimizar os riscos. E como ficam a sorte e o azar? Por mais que planejemos, tomamos precauções, evitamos situações de riscos conhecidos, o acaso existe, ou não? Fenômenos ou eventos improváveis podem acontecer, pois são improváveis, mas não impossíveis.

Considerando que aquilo que não é medido não pode ser controlado, uma questão interessante pode ser colocada: é possível medir a intuição? Talvez.

A matemática tem algumas ferramentas como estatística e análise combinatória.

A estatística usa teorias probabilísticas para explicar a frequência da ocorrência de eventos, no intuito de entender o acaso e a incerteza, para prever fenômenos futuros. O que é isso?

Isso significa que é possível montar um modelo matemático ideal para observar fenômenos imprevisíveis.

Para entender vamos pensar na mega-sena. Você escolhe, usando a sua intuição, 6 números dentro de universo de 60 números que constam do volante. Se você jogar 6 números, a chance de ganhar é 1 em 50.063.860.

Isso significa que 6 números combinados entre si, de um universo de 60 números, resultam em 50.063.860 combinações diferentes. É a analise combinatória que faz esse cálculo. Esse resultado é abstrato ou ideal, já que é um cálculo matemático.

Na prática o que significa?

Vamos fazer um experimento, você escolhe 6 números e outras pessoas também escolhem outros 6 números de modo que cada combinação de 6 seja de somente uma pessoa, isto é, sem duplicatas. Como há 50.063.860 combinações vamos ter a mesma quantidade de pessoas de posse de uma combinação de 6 números.

Após a escolha dos números por todas as 50.063.860 pessoas podemos iniciar o experimento. No experimento você escolheu os seguintes números: 1,2,3,4,5 e 6. Não gostou, né? Acontece que quaisquer 6 números tem a mesma probabilidade de serem sorteados, pois a cada sorteio as condições iniciais voltam ao zero e os eventos são independentes.

Porém na prática as coisas são diferentes do ponto de vista individual. Imagine que haverá um sorteio por dia. Isso significa que dentro de 137.087 anos e 3 meses (isso mesmo 137 mil anos) o seu número pode sair. A questão é se os seus 6 números irão sair no primeiro dia ou no último dia.

Se os seus 6 números foram sorteados no primeiro dia, que sorte!. E no último dia, que azar!

Esse experimento seria, na prática, muito demorado e difícil de realizar. Então vamos propor um outro que seja mais rápido e fácil de fazer.

Aposte no “cara e coroa”.

Como é o jogo?

Pegue uma moeda e escolha cara ou coroa. Jogue uma moeda de 1 real para cima, fazendo-a girar e veja qual a face que ficou para cima após a queda. Uma delas é a cara e a outra é a coroa (o valor da moeda). Acertou ou errou? Anote o resultado em um papel. Faça isso 10 vezes seguidas. A cada jogada da moeda sua chance de acerto é a mesma, pois as condições iniciais são iguais. Um resultado não se relaciona com o seguinte.

A probabilidade de você acertar uma vez é de 50%, ou seja, 1 em 2 jogadas.

Idealmente, considerando a probabilidade, você deveria acertar uma em cada duas jogadas, porém na prática isso não acontece. Você acerta e erra, de modo que terminando as 10 jogadas você pode ter conseguido acertar na média, ou seja, 5 resultados. Mas também pode ter acertado 1 só vez, ou 2, 3, 4, 6. 7, 8, 9 ou 10, como ter errado todas.

Se em uma sequência de 10 você acertar as 10 é sorte? E se errou todas, é azar? Como é que você explica a sua intuição em face ao resultado obtido?

A matemática explica que há uma distribuição de resultados em cada sequência de 10 jogadas. Como só há duas possibilidades o cálculo é simples, conforme a tabela:

Ordem
Número de caras
Número de coroas
Probabilidade
Probabilidade em %
1
0
10
1 em 1024
0,1
2
1
9
10 em 1024
1,0
3
2
8
45 em 1024
4,4
4
3
7
120 em 1024
11,7
5
4
6
210 em 1024
20,5
6
5
5
252 em 1024
24,6
7
6
4
210 em 1024
20,5
8
7
3
120 em 1024
11,7
9
8
2
45 em 1024
4,4
10
9
1
10 em 1024
1,0
11
10
0
1 em 1024
0,1

A tabela mostra que, idealmente, se você apostar 1.024 vezes na sequência de 10 “cara ou coroa”, você pode acertar uma vez todas as 10 (que sorte) ou errar uma vez todas as 10 (que azar).

Como na prática não vai acontecer o ideal, só você fazendo o experimento para medir como vai a sua intuição.

Como o objetivo é acertar todas as 10 apostas da sequência, e você se concentra e usa a sua intuição para acertar, é possível o seguinte resultado após as 10 apostas:

Acertos: zero, 1 ou 2. Improvável, o que está acontecendo? É possível explicar esse resultado ou foi acaso ou azar.

Acertos: 3. Pouco provável. Pense em como você tomou as decisões.

Acertos: 4, 5 ou 6. Muito provável. 5 é a média.

Acertos: 7. Uau! Pouco provável. Como explica esse acerto? Sorte ou acaso? Ou intuição?

Acertos 8, 9 ou 10. Improvável. O que significa isso para você. Sorte? Intuição? Dá para repetir ou foi um acaso?

A intuição leva a pessoa a acreditar que algo pode acontecer, então, antes de jogar a moeda, como está a sua intuição? É possível identificar uma relação entre esse sentimento de intuição e o resultado obtido no teste.

Essa resposta é pessoal e intransferível. Pois não da para explicar como é sentir uma intuição.

Eu estou fazendo um programa de computador para jogar o “cara e coroa” de uma maneira mais rápida, de forma que se possa testar a intuição em vários momentos e ver se é possível fazer algum tipo de correlação entre estados mentais e acertos nas apostas.

Quando o programa estiver pronto vou disponibilizá-lo na internet. Por enquanto vai jogando com a moeda.

É interessante ter conhecimento do processo pessoal de tomada de decisão, pois em tudo na vida decidimos sempre baseados nas nossas próprias crenças.

Os resultados obtidos nas apostas é fruto do acaso ou a intuição funciona?

É possível ter controle sobre a intuição?

O que é sorte ou azar?

Nada acontece por acaso, ou é uma grande mentira?

São perguntas cuja respostas depende de cada pessoa e das suas crenças. Se tiver as respostas me conte.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O improvável e o impossível: Entendendo a realidade em um mundo complexo.

Prevê-se que 2018 será um ano farto de acontecimentos impactantes, porém, o que vai acontecer?

Não sabemos!

A respeito do futuro só há previsões. Haverá muitas previsões face a eleição, copa do mundo de futebol, economia, taxa de câmbio, bolsa de valores e outros. Muitas dessas previsões falharão.

Assim, entender a realidade é útil para evitar problemas previsíveis e usufruir melhor das condições disponíveis.

Para fazer boas previsões é necessário ter um pensamento probabilístico, o que poucas pessoas têm. “Tenho certeza que vai acontecer”. Essa é uma afirmação que pode ser um engano, pois se não acontecer qual a consequência? Essa consequência pode ser entendida como risco.

Na prática, o que está em jogo é uma decisão. Uma decisão só existe, quando faltam informações e há consequências negativas no caso da decisão se mostrar errada. Certo ou errado faz parte do nosso cotidiano como jogos, como em situações novas, em testes, enfim quando nó nos frustramos em relação àquilo que se pretendia fazer. Precisamos de coragem para arriscar fazer e, se possível acertar. Por outro lado, a possibilidade de errar amedronta.

Para melhorar as decisões é importante distinguir o improvável do impossível.

Fiz outro dia um exame do coração chamado cintilografia coronariana com stress farmacológico.

Na orientação do laboratório havia um alerta sobre os efeitos colaterais da medicação injetada para realizar o exame. Uma possibilidade era de infarto ou óbito, porém muito raro, 1 em 10 mil exames. Perguntei à enfermeira se houve algum óbito no exame. Ela disse que trabalhava com esse exame nesse laboratório há 8 anos e não houve óbito.

Aí é que entra o entendimento da realidade probabilística.

Numa observação rápida, o laboratório devia fazer uns 100 exames por mês, então já haviam feito mais de 10 mil exames. O que isso significa?

Que um óbito vai acontecer a qualquer momento nesse laboratório, e pode ser eu. Certo?

Depende do fundamento estatístico. Tenho amigos que jogam na mega-sena e acham que o melhor é apostar nos números que não foram ou foram poucas vezes sorteados, pois há mais chance de sair. É o mesmo raciocínio.

Tanto na mega-sena como no exame do laboratório a probabilidade se renova a cada sorteio ou exame, ou seja, o que vai acontecer não depende dos eventos anteriores. Logo a crença de que os números pouco sorteados têm mais chance, ou o medo de fazer o exame pois a chance de óbito subiu, não são reais, são falsos.

Nesse exemplo podemos ver a diferença entre o impossível e o improvável.

Era provável que eu morresse no exame? Não. Era altamente improvável (1 para 10 mil), logo não tive infarto e nem morri. Porém era possível? Sim, pois já aconteceu esse fato nesse tipo de exame.

É provável que meus amigos ganhem na mega-sena jogando 6 dezenas só com números que não foram sorteados ou foram poucos? Não. É altamente improvável como é para quaisquer 6 dezenas jogadas. É impossível? Não, pois há casos de pessoas que ganham jogando só 6 dezenas.

Entender a diferença entre o possível e o provável é importante na tomada de decisão. Se eu não fizesse o exame com medo de morrer, iria pagar o custo de não avaliar a minha condição cardíaca, não podendo cuidar da minha saúde de um modo adequado ficando exposto a outros riscos em relação ao coração.

Os meus amigos jogam na crença de ganhar, pois os 6 números escolhidos têm mais chance de ser sorteado, e vão pagar o custo da aposta e a decepção de não ganhar quantas vezes eles jogarem.

E se eu tivesse morrido e um amigo meu ganhar a mega-sena?

Bem, isso já exige outros conceitos, que podem ser chamados de sorte ou azar, e que fica pra outro artigo.