sábado, 11 de maio de 2013

Reflexões sobre o Amor e o Marketing

O que há em comum entre o Amor e o Marketing?

Por incrível que possa parecer, as decisões de consumo são resultados de dois conceitos: a utilidade e a subjetividade. No início do século XX, no nascimento do Marketing, a utilidade era a principal causa do consumo. Nada mais útil do que um alimento, e o Marketing apareceu estudando os canais de distribuição de alimentos.

Nos Estados Unidos, na década de 1910 a percepção dos consumidores era que o preço pago no varejo para produtos agrícolas era injustificavelmente alto. Eles não entendiam bem o porquê da diferença do preço no varejo em relação ao preço no portão da fazenda.

Em resposta à crescente insatisfação dos consumidores com os preços nas grandes cidades e com os atacadistas (atravessadores) e varejistas, muitos teóricos decidiram avaliar as funções e eficiência das organizações envolvidas no transporte e transformação do fluxo de produtos do produtor para o consumidor.
 
L. D. H. Weld em 1916, em seu livro The Marketing of Farm Products, (podendo se traduzido para Marketing de Produtos Agrícolas e considerado o primeiro livro de Marketing) defendia a eficiência do canal de distribuição.

No decorrer do século XX, a utilidade como causa principal do consumo, foi sendo substituída pela subjetividade em importância, ou seja, a utilidade permanece nos produtos, mas a subjetividade prevalece como principal fator decisório.

Essa prevalência da subjetividade é resultado da enorme oferta de produtos que exigie um processo de escolha complexo na mente do consumidor, como, também é resultado da forte competição entre os produtos, que leva as empresas a fazer propagandas de forte cunho emocional para influir na decisão de compra.

Como a neurociência já estudou e entendeu que no processo de decisão de compra a emoção supera a razão, comprovou-se o que os profissionais de Marketing já sabiam pelo uso prático da propaganda: o processo mental de decisão de compra é emocional e subjetivo, deixando a utilidade em segundo plano.

Por essa razão, que os conceitos usados pelo Marketing são:
  • a necessidade que é algo que falta;
  • o desejo, que é algo que se quer e pode mobilizar para a ação;
  • os motivos que são a causa de uma ação;
  • os benefícios que são o resultado do uso de um produto;
  • o valor que pode ser uma importância ou uma qualidade que se atribui a algo;
e assim por diante.

Logo para se pensar no Marketing é necessário saber pensar nos intangíveis, no sensível, na subjetividade.

Veja o vídeo e pense nos intangíveis.

  

Mas, e o AMOR?
 
O amor, talvez seja o intangível que mais está presente em nossas vidas e o mais difícil para explicar, ou justificar, ou entender, ou para se pensar: O que é o amor?
 
E o amor é um forte apelo de Marketing. Viu o vídeo acima?
 
Sabe-se que a pesoas que faz o que gosta e trabalha com amor, trabalha melhor e se realiza profissionalmente. As empresas que tem consideração pelos seus clientes, ou amam seus clientes também são amados por eles. O que é o amor?
 
O que é o amor?   Boa pergunta!
 
O amor comanda, não se escolhe. Amamos o que desejamos e não escolhemos, pois a escolha é resultado do desejo. Quem pode escolher seus sentimentos? Como poderíamos escolher nossos desejos e nossos amores?
 
O amor não é um dever. O dever é uma obrigação, uma coerção, não uma liberdade. O que fazemos por amor não fazemos por dever. Somente quem ama não precisa agir como se amasse.
 
O amor nasce da sexualidade, mas não se reduz a ela. Vai muito além dos prazeres eróticos. Sem o amor o que restaria das nossas virtudes? Mas há uma maneira, às vezes, medíocre, egoísta e odienta de se fazer amor.
 
O que é o amor?   Boa pergunta!
 
O filósofo Comte-Sponville vê três visões do amor. A primeira é Eros.

O amor é falta. Aristófanes (no mito dos andróginos) vê a pessoa em busca de sua metade que lhe falta. Essa obrigação, essa busca, esse desejo é o que se chama de amor, e que é a condição da felicidade. É o Grande Amor, total, definitivo, único, exclusivo, absoluto. Talvez, Aristófanes descreva o amor que tenhamos vivido com nossa mãe.

Mas o que é mais contrário à nossa experiência cotidiana do que esse amor de dois que, após se encontrarem, formam um só? O coito, longe de abolir a solidão, a confirma. Os amantes o sabem. “Post coitum omne animal triste” diziam os latinos. O prazer recusa exatamente aquilo que se queria. Após o prazer, vê-se novamente entregue a si mesmo, à sua solidão, a esse grande vazio do desejo desaparecido. Dois amantes que gozam simultaneamente são dois prazeres diferentes, duas solidões. Nunca um único, um absoluto, um total.

Platão, por Diotímia, coloca que: Todo amor é amor a alguma coisa, que ele deseja e que lhe falta. O amor é desejo e desejo é falta. Mas só há desejo se a falta é percebida como tal, vivida como tal. O amor é essa falta vivida de seu objeto. Só desejamos aquilo que nos falta, o que não temos. Uma falta, ao ser satisfeita, não é mais falta, desaparece. Daí o grande sofrimento do amor enquanto a falta domina, e a tristeza quando não domina mais. O desejo se abole em sua satisfação.

Se o amor é falta, amar é carecer do que se ama e querer possuí-lo sempre. Esse amor é egoísta, repleto de ausência, cheio de vazio de seu objeto, quer possuir sempre. Mas como possuir sempre? Responde Platão: “Pelo parto na beleza, segundo o corpo (família – procriação) ou segundo o espírito (arte – criação)”.

A natureza mortal sempre busca perpetuidade. Esse é o princípio do amor: O amor é aquilo pelo que os mortais tendem a se conservar e a participar da imortalidade. Se o amor é falta, sempre tende para o que falta cada vez mais, para o que falta absolutamente, que é o Bem (de que o Belo é sua deslumbrante manifestação), que é a transcendência, que é a fé (que é Deus).

Se o amor é falta, carência é sua essência, quem diz falta diz sofrimento e possessividade. Eu te amo, eu te quero. É o amor ciumento, ávido, possessivo, é amar o outro para o seu próprio bem. Eros é um deus ciumento. Quem ama quer possuir, quer guardar só para si. Você ama o que não tem, o que lhe falta, é o tormento do amor.

Se o amor é falta, como saciá-lo sem suprimi-lo? Como se o amor só é apaixonado na falta? Como o amor pode ser feliz se só ama o que não tem, e o que não é atual nem presente? A paixão só pode durar no sofrimento, sob a condição de insatisfação, frustração e infelicidade.

Se o amor é desejo, se o desejo é carência, só podemos amar o que não temos, e sofrer com essa carência. Só podemos ter o que já não falta e que portanto não poderíamos a continuar a amar porque já não nos falta. É a paixão ou o tédio. Como poderia nos faltar o que temos? Como poderíamos amar o que não falta?

Não confundamos o amor com as ilusões que temos a seu respeito. Amar é viver uma dessas histórias de amor grandiosas e trágicas? A memória é mais verdadeira que o sonho, a experiência do que a imaginação. Estar apaixonado é cultivar certo número de ilusões sobre o amor.

Faz parte da essência do amor, querer amar sempre, mas de fato, amar só apenas por um tempo. Toda falta, se não mata, se aplaca, porque a satisfazemos ou nos habituamos, ou a esquecemos. Se o amor é falta, está fadado ao fracasso (na vida) ou só pode ter êxito na morte.

Se o desejo é falta e só desejamos o que não temos, por isso nunca somos felizes e nem nos sentimos satisfeitos. O desejo nos encerra na infelicidade ou na insatisfação. A vida, necessariamente, é frustrada.

Só sabemos desejar o que nunca é nem atual, nem presente, ou seja o que não existe. Desejamos não essa pessoa que é real, mas a sua posse que não é real, não a obra que fazemos, mas a glória, não a vida como a temos, mas uma outra que não temos. Se o amor é falta, só existe amor imaginário e sempre amamos apenas fantasmas. Mas esse é o único amor de que somos capazes?
 
O filósofo Comte-Sponville vê três visões do amor. A segunda é Philia.

O amor é sempre uma falta? É apenas isso? Platão argumenta: Quem tem boa saúde tem saúde presente, o que se deseja é a sua continuação, a saúde por vir, que não se tem. Confunde-se assim desejo e esperança. Só se espera o que não se tem ao irreal e à falta. A esperança é a própria falta. Esperamos o que não temos, não sabemos, não podemos. Dizia Spinoza, esperança é inquietude, ignorância, impotência. Mas todo desejo é esperança? Desejamos o que não é, então como poderíamos amar o que é?

Agora que escrevo, esse escrever presente está orientado para o futuro mas não por falta ou esperança. Como esperar o que depende de mim? É o abismo que separa o desejo como carência (esperança ou paixão) do desejo como poder ou gozo (prazer ou ação).

A vontade para as coisas que dependem de mim é desejo em ato. Há prazer, alegria cada vez que desejamos o que fazemos, o que temos, o que existe, o real, aquilo que não nos falta. É uma experiência da potência e da plenitude. É o que há de forte no amor que se faz, quando se faz com amor. O amor que fazemos ou damos é ação.

Amamos os amigos que temos, como são, não como falta. Consiste antes em amar que ser amado. Não é falta mas comunidade, partilha, fidelidade. A mais elevada amizade é uma virtude. Amar é a virtude dos amigos.

Eis Spinoza: O amor é desejo, pois o desejo é a própria essência do homem. Mas o desejo que não é falta, o desejo é potência e o amor é alegria. É potência de agir, força de existir, potência de viver. Se a fome é falta, o apetite é potência de comer e de desfrutar o que se come. É ao impotente que falta algo, não ao amante disposto e feliz. Quem não conheceu momentos de desgosto, depressão ou impotência. O que faltava? A força de desfrutar e amar.

Amar é ter prazer em ver, tocar, sentir, conhecer ou imaginar. Amar é poder desfrutar alguma coisa ou regozijar-se dela.

Os amantes sabem quanto pode ser sensual e forte fazer amor na alegria em vez de na falta, na ação em vez de na paixão, no prazer em vez de no sofrimento, na potência saciada em vez de na frustrada, ou seja, desejar o amor que fazemos em vez do amor que sonhamos, que não fazemos e que nos atormenta.

“Quando penso que você existe, fico feliz”. É uma declaração de amor que não pede nada. Mas se o amor é falta, e que toda falta quer possuir, que peso para o outro que você ama. Que angústia! Que prisão! Mas o amor que nada pede, que celebra a presença, a existência , é dom, é oferenda, não é pedir, não é possuir, que leveza para você e para o outro. Que liberdade! Que felicidade! Por isso o amor nutre quando é ativo. Quando é sem falta é alegria. Tenho a alegria por existires.

A esse amor não falta nada. Mas se lhe falta seu objeto é por motivos exteriores, por ausência, talvez por afastamento ou por sua morte. O amor pode ser frustrado, estar de luto. Se a causa da minha alegria desaparece, como eu não seria infeliz? Mas o amor está na alegria, mesmo que ferida, mesmo que atrozmente dolorosa quando a magoam. Não é o que me falta que eu amo. O que eu amo é que, as vezes, me falta. O amor é primeiro, a alegria primeira. Não há amor infeliz e tampouco felicidade sem amor.

Alegria e tristeza se mesclam. porque oscilamos entre a falta e a potência, entre a paixão e a ação, entre o amor que só deseja o que não tem e quer possuir (eros) e o amor que tudo tem pois só deseja o que existe, o que desfruta (philia). Amar um ser é desejar que ele exista, quando existe (senão só se espera), é desfrutar sua existência, o que ele oferece em prazeres ou alegria. Mas a mesma palavra amar também é falta ou paixão, prestando-se à confusão.

A palavra Philia é o amor quando desabrocha entre os humanos. É o amor entre marido e mulher quando cada um dos dois deposita sua alegria na virtude do outro. É vida partilhada, a escolha assumida, o prazer e a confiança recíprocos, o amor-ação.

Estar apaixonado é sofrer se não for amado, é esperar a felicidade do amor do outro, da presença do outro, da posse do outro. De quem é a culpa se a paixão não passa de um sonho. Amamos uma mulher pelo o que ela não é, dizia Gainsbourg, e a deixamos pelo que ela é. Há sempre mais verdades no desamor que no amor. Mas os amantes continuam a se desejar quando é mais potência que falta, mais prazer que paixão.

O que há de mais fácil de amar do que seu sonho? O que há de mais difícil de amar do que a realidade? Como é preciso ter medo da vida para preferir a paixão a ela! Como é preciso ter medo da verdade para preferir a ilusão a ela. O amor egoísta é amar o outro para o bem de si mesmo, o amor de benevolência ou de amizade, ao contrário, é um amor generoso, é amar o outro para o bem deste. Mas nenhum amor humano é desprovido de cobiça.

Eros e Philia se misturam. Eros se desgasta a medida que é satisfeito e só renasce para um novo morrer, mas cada vez com menos violência, menos falta. Ao passo que Philia, num casal feliz, não cessa de se fortalecer, de se aprofundar, de se expandir.

É a lógica da vida. primeiro amamos apenas a nós mesmos, depois aprendemos a amar um pouco o outro por ele mesmo também: alegria, amizade, benevolência. É passar do amor a si ao amor ao outro, do amor que toma ao amor que dá. De Eros a Philia.

O filósofo Comte-Sponville vê três visões do amor. A terceira é Agapé.

A amizade não é um dever, é uma virtude, pois o amor é uma excelência. A amizade é uma coisa nobre.

Amar o que falta (Eros) esta ao alcance de qualquer um. Amar os amigos, os que não faltam, os que nos fazem bem ou que nos amam, embora seja mais difícil, continua sendo acessível (Philia). Mas e amar os inimigos, os indiferentes, os que não nos faltam nem nos alegram, os que nos estorvam, os que nos entristecem ou nos fazem mal? Como seríamos capazes?

Esse amor além do amor, que não é falta nem potência, nem paixão nem amizade, esse amor sublime e talvez impossível, universal e desinteressado é Agapé.

Às vezes os casais vivem um amor desinteressado. Há Eros, que deseja que toma e que possui. Há Philia, que se regozija, que partilha, que é como uma adição de forças, como uma potência duplicada pela potência do outro, pela alegria do outro, pela existência do outro.

No entanto há Agapé quando você vê o outro existir cada vez mais, o vê tão forte, tão contente, tão satisfeito, vê como o amor vai bem, o vê ocupar tão bem todo o espaço disponível, toda a vida disponível, o vê afirmar sua potência, sua existência, sua alegria, o vê perseverar tão triunfalmente no ser, e você se sente como que invadido, esmagado, sente que você mesmo existe cada vez menos, que sufoca. Você recua um passo, na mesma hora o outro avança o mesmo tanto, mas você o faz porque não quer exercer todo o poder de que dispõem, para deixar mais lugar, mais liberdade, mais poder ao outro, para não o esmagar com sua presença, com sua potência, com seu amor.

É abster-se de mandar onde tem poder para fazê-lo. É o amor em que você pode mostrar suas fraquezas sem que o outro se sirva dela para afirmar a sua força. Se você recua um passo o outro recua dois. Simplesmente para lhe dar mais lugar para não o invadir, não o oprimir, para lhe deixar um pouco mais de espaço, de liberdade, de ar, e tanto mais quanto mais fraco o sentir, para não impor sua potência, nem mesmo sua alegria, ou seu amor. É um amor incondicional, o que há de divino no amor.

Agapé é o amor que não conforta o ego mas liberta dele, o amor desinteressado, gratuito, o puro amor, o amor que dá, mas que dá em pura perda, e não só a seus amigos mas ao estranho, ao desconhecido, ao inimigo.

 
O texto foi escrito a partir do capítulo sobre o amor do livro Pequeno Tratado das Grandes Virtudes do filósofo André Comte-Sponville.
 

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