domingo, 13 de setembro de 2015

Desenvolvimento como Liberdade

A visão de desenvolvimento comunitário visto como um processo de expansão das liberdades substantivas das pessoas foi proposto do Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen em seu livro Desenvolvimento como Liberdade (Companhia das Letras, 2000).

Os principais pontos a serem examinados no conceito de Desenvolvimento como Liberdade são:
  • O desenvolvimento pode ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam.
  •  A liberdade é o principal meio de desenvolvimento.
  •  As liberdades estão interligadas entre si e cada liberdade influencia as outras.
  • O desenvolvimento como liberdade visa aumentar a livre condição de agente social das pessoas em proverem a própria existência e a existência de sua comunidade.
  • O exercício da liberdade é mediado por valores, que por sua vez, são influenciados por discussões públicas e interações sociais.
  • O exercício da liberdade é exercido individualmente e coletivamente.
Há cinco (5) tipos de liberdade vistas de uma perspectiva instrumental:
  1. Liberdades Políticas. São as oportunidades que as pessoas têm para determinar quem deve governar e com base em quais princípios. Inclui a possibilidade de fiscalizar e criticar as autoridades, a imprensa sem censura, a existência de Partidos Políticos, etc.
  2. Facilidades Econômicas. São as oportunidades que as pessoas têm para utilizar recursos econômicos com propósito de consumo, de produção ou de troca. Inclui não só os recursos próprios, como também, a disponibilidade e acesso a financiamento e crédito.
  3. Oportunidades Sociais. São os serviços na área de educação, saúde e cultura que a sociedade oferece às pessoas e que influenciam a liberdade do indivíduo viver melhor. As oportunidades sociais afetam diretamente as capacidades individuais.
  4.  Garantias de Transparência (direito à revelação). Diz respeito à necessidade de se ter uma presunção básica de confiança nos relacionamentos. A confiança é proporcional a um ambiente de clareza, sinceridade e dessegredo. O ambiente transparente tende a inibir a corrupção, a irresponsabilidade financeira e as transações ilícitas.
  5. Segurança Protetora. É a necessidade de existir uma rede de segurança social que possa proteger os indivíduos. Inclui distribuição de alimentos, benefícios de renda e assistência na emergência.
Do ponto de vista da transformação social, o conceito de Desenvolvimento como Liberdade se apresenta como “ações de enfrentamento que visam remover as causas/fontes de privação das liberdades”.

Das muitas causas/fontes de privação de liberdade que estão submetidas uma comunidade pobre, destaca-se as principais:
  • Pobreza (como insuficiência de recursos financeiros, e baixa capacidade de geração de renda). Relaciona-se com a liberdade denominada “Facilidades Econômicas”.
  •  Carência de oportunidades sociais (insuficiência ou ausência de oferta de serviços de educação, saúde, cultura, esportes e lazer). Relaciona-se com a liberdade denominada “Oportunidades Sociais”.
  • Negligência dos órgãos públicos e da assistência social. Relaciona-se com as liberdades denominadas “Segurança Protetora”, “Garantias de Transparência” e “Liberdades Políticas”.
A maioria das causas/fontes de privação de liberdade deve ser enfrentada de forma coletiva, através da comunidade organizada em associações. Fontes de privação de liberdade como insuficiência e preço dos transportes públicos, carência de moradia, serviços de saúde e de educação inadequados ou inexistentes, etc. requerem capacidade coletiva de influir nas políticas públicas.

Outras fontes de privação de liberdade devem ser enfrentadas dentro da própria comunidade, capacitando seus indivíduos e propiciando graus associativos que desenvolvam senso de responsabilidade, atitudes de solidariedade e de cooperação, que possam levar ao enfrentamento das causas da pobreza.

Dentro da liberdade instrumental denominada “Facilidades Econômicas”, a principal e mais essencial causa da pobreza é a privação da liberdade de troca.

A liberdade de troca e de transação é a principal parte e a mais essencial das liberdades que as pessoas tem razão para valorizar. A exclusão econômica é a privação da liberdade de participar do intercâmbio econômico que determina, em última instância, a vida social. Intercambio econômico significa ao mesmo tempo “produzir renda e consumir”.

Deve-se olhar a liberdade de troca de outro ponto de vista. A vida social do início do século XXI organiza-se me torno do consumo. A comunicação entre as pessoas ocorre mediada pelo consumo. Consumir é uma forma de mostrar aos demais os próprios valores e estilo de vida. Consumir é, também, uma forma de comunicação interpessoal.

Assim, atualmente, a maior privação de liberdade, para todos os indivíduos, não é a privação da liberdade de produzir renda, e sim, a privação da liberdade de consumir a enorme oferta de mercadorias e serviços. Em maior ou menor grau, quase todos somos escravos, privados da liberdade de consumir todos os benefícios da tecnologia e do progresso material. Em um ambiente de extrema oferta somos quase todos condenados a uma permanente carência de consumo.

A liberdade de troca é observável por:
  • Possuir recursos financeiros (moeda).
  • Possuir bens trocáveis (capital).
  • Desenvolver habilidades e competência para produzir algo com o objetivo de troca.
  • Desenvolver habilidades e competência para conseguir trocar o que foi produzido por dinheiro.
  • Participar de uma organização que viabilize a troca (negócio).
  • Existir uma regulação social das trocas que não impeça ou prejudique o indivíduo no exercício da troca (liberdade comercial).
  • Existir um sistema de impostos, taxas e exigências legais que não tornem o exercício da troca oneroso ou inviável (custo Brasil).
  • Existir acesso ao crédito ou ao financiamento que viabilizem o exercício de troca (incubadora social).
A privação do consumo, oriunda da privação da liberdade de troca, leva os indivíduos a sofrerem as seguintes consequências:
  • Fragilização do indivíduo pela perda de autonomia, da autoconfiança e da saúde psicológica e física.
  • O indivíduo fragilizado é vulnerável à violação de outras liberdades.
  • O indivíduo violado em suas liberdades já conquistadas tende a perder a iniciativa, a capacidade de associar-se, a capacidade de investir, tornando-se, cada vez mais, isolado, frágil e vulnerável.
Assim, há dois eixos que devem ser considerados, um de âmbito individual e outro de âmbito coletivo. No âmbito individual procura-se levar o indivíduo a ter atitudes mais empreendedoras em relação à sua vida e à sua comunidade. No âmbito coletivo procura-se desenvolver laços de colaboração, cooperação e de solidariedade para a construção de objetivos coletivos.

No vídeo abaixo vê-se a palestra que êle fez no Brasil em 2012. Infelizmente a partir de 2013 a economia brasileira começou a apresentar sinais de deagregação o que contradiz o elogio que êle fez do Brasil e mostra que a condução econômica é mais difícil.

O Brasil conseguiu elevar a renda das pessoas e do Estado nos últimos 20 anos, o que foi bom, Mas o Estado não foi responsável o suficiente, gastando demais e aumentando a dívida pública, daí gerando a crise econômica que vivemos em 2015.

A saída para a crise segundo Amartya não é um programa de austeridade. A saída da crise é aumentar as cinco (5) liberdades instrumentais ao mesmo tempo:
  1. Liberdades Políticas. Inclui a possibilidade de fiscalizar e criticar as autoridades e ter a imprensa sem censura.
  2. Facilidades Econômicas. Inclui a facilidade de abrir negócios e gerar empregos (diminuir a burocracia).
  3. Oportunidades Sociais. Inclui a melhora dos serviços na área de educação, saúde e cultura que influenciam a liberdade do indivíduo viver melhor.
  4. Garantias de Transparência (direito à revelação). Inclui um ambiente transparente que tende a inibir a corrupção, a irresponsabilidade financeira e as transações ilícitas.
  5. Segurança Protetora. Inclui distribuição de alimentos, benefícios de renda e assistência na emergência.
Veja o vídeo abaixo para um melhor entendimento.






domingo, 2 de agosto de 2015

Quem sou eu?

O cotidiano é feito de coisas. A coisa é a realidade na sua materialidade imediata. A representação das coisas pela consciência é o objeto. Essa representação é feita por meio de conceitos, ideias e significados.

A consciência é sujeito do conhecimento, sendo o conhecimento construído pela consciência através da percepção, memória, imaginação, vontade, pensamento, etc.

Por volta do ano 500 A.C., nas colônias gregas as condições de vida estavam em transformação, devido à revolução econômica representada pela adoção do regime monetário. A moeda, facilitando as trocas, fortalecia econômica e socialmente aqueles que viviam do comércio, da navegação e do artesanato.

Neste contexto, manifestaram-se novas formas de pensamento racional, que não partiam da tradição mítica, mas de realidades apreendidas na experiência humana cotidiana. Surgiram, então, as primeiras concepções científicas e filosóficas da cultura ocidental que coordenavam racionalmente os dados da experiência sensível.

Pitágoras de Samos e seus seguidores conceberam o universo, a partir de fundamentos matemáticos, como um campo em que se contrapõe o Mesmo (identidade) e o Outro (alteridade), estabelecendo para os diferentes níveis da realidade uma tábua de opostos que manifestam a oposição observada entre os números ímpares (identidade) e pares (alteridade), por exemplo: Finito e infinito; Ímpar e par; Unidade e multiplicidade; À direita e à esquerda; Macho e fêmea; Repouso e movimento; Reto e curvo; Luz e obscuridade; Bem e mal; Quadrado e retângulo.

As categorias biológicas (macho/fêmea), as espaciais (esquerda/direita) e as éticas (bem/mal) seriam variações da oposição fundamental que determinaria a existência das unidades numéricas: a oposição entre o finito e o infinito.

Parmênides de Eléia formulou explicitamente o princípio lógico-ontológico da identidade: "O que é, é - e não poderia deixar de ser". O ser é idêntico, imóvel, eterno, finito, imutável, pleno, contínuo, homogêneo e indivisível.

Porém, os caracteres da imutabilidade, imobilidade e unidade contrariavam frontalmente a percepção dos sentidos que vêm o mundo de coisas diversas, móveis e mutáveis. Mas, para Parmênides, o real é o pensamento, idêntico, imutável, e o aparente é o movimento, aquilo que muda. Se as coisas mudam, elas não podem ser pensadas, de forma que o movimento é a ilusão dos sentidos.

Heráclito de Éfeso, por outro lado, enfatiza o caráter mutável da realidade formulando o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade das coisas particulares e transitórias. O que os sentidos mostram é ilusório, porque vê-se o estável e tudo está em movimento: um homem não se banha duas vezes num mesmo rio, porque, na segunda vez, não é o mesmo rio e nem é o mesmo homem, pois ambos já se modificaram. Para Heráclito, o real é aquilo que muda, o movimento, sendo que o aparente é o idêntico, o imutável.

Pitágoras, Heráclito e Parmênides, conhecidos como filósofos pré-socráticos estavam preocupados com a observação racional da realidade, com a identidade, com as diferenças e com o movimento (transformações).

Dentro desse contexto de reflexão sobre o movimento e a natureza estática dos conceitos que Julian Baggini faz a sua provocação: Existe um verdadeiro você?




Nós temos um núcleo, uma essência? Existe algo sobre o que significa ser você, que te define, e parece permanente e imutável. Se há esse núcleo, podemos classificar as pessoas em categorias conforme os estilos de amar, ou de trabalhar, ou de aprender. Logo, podemos dizer que você é um tipo de pessoa ou outro tipo, como por exemplo os signos do zodíaco.

Essa é uma ideia de senso comum que existe um tipo de núcleo ou essência de nós mesmos a ser descoberto. Algo do tipo verdade permanente que não muda ao longo da vida.

Bem, essa é a ideia que Julian quer desafiar. Não existe realmente um "você" por trás dessas experiências. Estranho, não?

O que existe, então?

Bem, existem, sem dúvida, memórias, desejos, intenções, sensações, e assim por diante. Também existe uma narrativa, uma história sobre nós mesmos, as experiências que temos quando lembramos do passado. Nós fazemos coisas por causa de outras coisas. Então o que nós desejamos é em parte resultado de nossas crenças, e o que nós lembramos é aquilo que podemos dizer que sabemos.

A questão pode ser colocada da seguinte forma: Você é um ser permanente, que tem experiências, ou são as experiências que fizeram você um ser, ou seja você é uma coleção de experiências.

Julian coloca o exemplo de um relógio.

Podemos dizer que um relógio tem uma face, ponteiros, um mecanismo e uma bateria, O que quer dizer? O relógio é a soma das suas partes. Então, por que nós seríamos diferentes?

Nós nos enxergamos como de alguma forma sendo uma coleção de partes, mas também sendo uma entidade permanente e separada que tem essas partes.

Então, se for verdade, que para cada um de nós não existe um núcleo pessoal permanente, nenhuma essência permanente, isso significa que o “eu” é uma ilusão? Isso significa que nós não existimos de verdade? Não existe um você verdadeiro?

De volta ao relógio. O relógio não é uma ilusão, mesmo que não haja nada no relógio além de uma coleção de suas peças. Igualmente, nós também não somos ilusões.

Julian apresenta uma metáfora, a das Cataratas do Iguaçu.

Na cachoeira as águas estão sempre fluindo e a catarata está sempre se modificando. Mas não significa que as Cataratas do Iguaçu são uma ilusão. Não significa que não é real. Significa que a cachoeira é algo que tem uma história, tem coisas que a mantém íntegra, mas em processo, fluindo, sempre mudando.

Para Julian, essa metáfora é um modelo libertador.
Porque, se você acha que tem essa essência fixa e permanente, que não muda, ao longo da vida, não importa o que aconteça, você está em uma armadilha.

Você nasce com uma essência, e você é isso até morrer, e se você acredita em vida após a morte, talvez você continue.

Mas se você se enxerga como sendo, de certa forma, não algo em si, mas um tipo de processo, algo que se modifica, então é liberador.

Se você pode se modificar, de certa forma, você pode ser o que quiser. É óbvio que há limites para o que nós podemos alcançar. Há limites para o que podemos fazer de nós mesmos. Mas, de qualquer forma, nós temos essa capacidade de nos moldarmos. O que você está fazendo, ao menos em parte, é na verdade criando o seu verdadeiro ser.

Voltando aos filósofos Parmênides e Heráclito.

Para Parmênides, o real é o pensamento, idêntico, imutável, e o aparente é o movimento, aquilo que muda. Se as coisas mudam, elas não podem ser pensadas, de forma que o movimento é a ilusão dos sentidos. Esse seria o seu eu verdadeiro. O ser imutável, porém, escravizado.

Para Heráclito o real é aquilo que muda, o movimento, sendo assim, libertador, pois sempre há a possibilidade de transformação, de criação ou de inovação. “Um homem não se banha duas vezes num mesmo rio”.


Volte ao vídeo, pense e responda: quem é você?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A falta de água, os negócios e o Marketing.


Estou passando por um problema muito sério de FLUXO DE CAIXA aqui em São Paulo.

Um amigo recomendou a falar com o gerente do banco, mas, na verdade, eu estou falando da caixa de água da minha casa.

Mas meu amigo não estava todo errado.

O problema é que a Sabesp corta a água e há momentos em que ela entra com pressão baixa.

Comparando com um negócio, estou com problema de vendas baixas (pressão) e às vezes venda zero ou perda de um cliente (corte no fornecimento).

Porém, as necessidades de uso da caixa continuam, descarga na privada, banho, lavar roupa, pratos, etc. A vida continua e a necessidade se impõem.

Quando a pressão (vendas) era forte, rapidamente a caixa enchia e mesmo com corte de água ela abastecia por um dia. Mas as coisas mudaram, e agora ela enche de vagar.

Isso provocou a necessidade de se controlar o fluxo de caixa para adequar a entrada (receitas) com a saída (despesas) da água.

Ontem ficamos sem uma gota de água na caixa e a Sabesp tinha cortado a água. Foi um caos. É assim numa empresa. Quando falta dinheiro todo mundo reclama e ninguém tem razão.

A perspectiva para 2015 será de permanente falta de água. A Sabesp já informou que o reservatório Cantareira seca em março, e as chuvas só voltam em novembro.

O que fazer?

O mesmo que em uma empresa. Cortar custos. Isso é um horror. A água é fundamental para a vida logo gastar menos água deixa a vida pior. Economizar, gastar menos água é uma estratégia administrativa, não mercadológica.

A solução do marketing é outra: vender mais!

Analisando o mercado, ou seja, o fornecimento da Sabesp, observa-se que há água suficiente. O problema é a oportunidade, ou seja, quando há agua com pressão deve-se aproveitar para encher a caixa no máximo (vender o máximo).

Então isso significa que eu devo monitorar todos os dias e várias vezes por dia a entrada de água (vendas). Quando a pressão está boa, ótimo, a água vai direto para a caixa. É o fluxo de caixa perfeito, entrada maior que a saída.

Quando a pressão estiver baixa e a saída não deixar a caixa encher, vou usar uma inovação. Pegar a água logo na torneira junto ao cavalete de entrada, onde a pressão é mais forte, e encher um recipiente para armazenar água. Posso chamar essa estratégia de novo mercado ou novo produto.

Enfim, há duas possibilidades, que uma não exclui a outra. Uma é reduzir custos, o que muitas vezes deixa a empresa fraca e pouco competitiva. É óbvio que vou reduzir o desperdício de água, mas isso é aumento de produtividade.

A outra é aumentar vendas, que é o único objetivo do Marketing. Implica monitorar o mercado, conhecer os clientes e ser criativo e inovador.


Bem, 2015 vai ser um grande desafio para as pessoas, ou no campo dos negócios ou no uso da água. E o problema será o FLUXO DE CAIXA.