Traduzido e adaptado por Roberto Silveira Braga
O sistema de funcionamento da economia mundial está sendo
reescrito. Neste artigo baseado no livro “No Ordinary Disruption” (PublicAffairs,
May 2015) da McKinsey Global Institute, onde seus autores (Richard Dobbs, James
Manyika, and Jonathan Woetzel) explicam as tendências que estão remodelando
o mundo e por que os líderes devem se ajustar a essa nova realidade.
Na primeira revolução industrial do final do século 18 e
início do século 19, uma nova força mudou tudo. Hoje nosso mundo está passando
por uma transição ainda mais dramática devido à confluência de quatro forças disruptivas
fundamentais.
Em comparação com a primeira revolução industrial, a
estimativa é que esta mudança está acontecendo dez vezes mais rápido, 300 vezes
maior e cerca de 3.000 vezes mais importante quanto ao impacto.
Embora todos nós sabemos que essas perturbações estão
acontecendo, a maioria de nós não conseguem compreender a sua plena magnitude e
não imaginam os efeitos de segunda e terceira ordem que irão resultar.
Por mais que as ondas possam amplificar um ou outro aspecto,
essas tendências estão ganhando força, magnitude e influência pois elas
interagem entre si, coincidem, e alimentam uma as outras.
Juntas, essas quatro tendências perturbadoras estão
produzindo uma mudança monumental.
Primeira força.
Além de Shanghai: A
era da urbanização.
A primeira força disruptiva é o deslocamento do dinamismo e
da atividade económica para os mercados emergentes como a China e para as
cidades dentro desses mercados.
Estes mercados emergentes estão passando por revoluções
industriais e urbanas simultâneas, mudando o centro da economia mundial para o leste
e sul a uma velocidade nunca antes testemunhada.
No ano 2000, 95 por cento das maiores empresas internacionais
do mundo listados na Fortune Global 500, incluindo Airbus, IBM, Nestlé, Shell e
Coca Cola, para citar algumas, tinham sede em economias desenvolvidas.
Em 2025, quando a China será o lar de empresas maiores do
que as do Estados Unidos ou da Europa, espera-se que quase metade das grandes empresas
do mundo, aquelas com receita acima de US $ 1 bilhão tenham sede em mercados
emergentes.
O ex-executivo-chefe do Deutsche Bank, Josef Ackermann
dizia: “Ao longo dos anos, as pessoas em nossa sede, em Frankfurt, começaram a se
queixar de mim: nós não vemos mais você por aqui”. Havia uma razão. O crescimento
mudou para outro lugar, para Ásia, América Latina e Oriente Médio. Então era lá
que eu ia. E o centro da atividade econômica também está se deslocando dentro
desses mercados.
A população mundial urbana vem aumentando, durante as
últimas três décadas, a uma média de 65 milhões de pessoas por ano, o que é o
equivalente à soma de sete cidades como Chicago por ano, a cada ano.
Quase a metade do crescimento global do PIB entre 2010 e
2025 virão de 440 cidades em mercados emergentes, sendo que 95 por cento delas são
pequenas e médias cidades que muitos executivos ocidentais podem nunca ter
ouvido falar e não conseguem localizar no mapa. Sim, Mumbai, Dubai e Xangai são
familiares. Mas o que dizer de Hsinchu, no norte de Taiwan? Santa Catarina no
Brasil, a meio caminho entre São Paulo e a fronteira uruguaia? Ou Tianjin, uma
cidade que fica a cerca de 120 quilômetros ao sudeste de Beijing?
Em 2010, estimou-se que o PIB de Tianjin foi de aproximadamente
US$ 130 bilhões, tornando-se cerca do mesmo tamanho que Estocolmo, capital da
Suécia. Em 2025, estima-se que o PIB de Tianjin será em torno de US$
625.000.000.000, aproximadamente a de toda Suécia.
Segunda força.
A ponta do iceberg:
Acelerando as mudanças tecnológicas.
A segunda força disruptiva é a aceleração no escopo, na escala
e no impacto econômico da tecnologia.
A tecnologia, desde a invenção da prensa para a máquina à
vapor até a Internet, sempre uma grande força derrubou o status quo. A
diferença é que hoje há uma quase onipresença da tecnologia em nossas vidas com
uma extrema velocidade de mudança.
Demorou mais de 50 anos, depois que o telefone foi inventado,
até que metade dos lares americanos tivessem um. O rádio demorou 38 anos para
atrair 50 milhões de ouvintes. Mas o Facebook atraiu 6 milhões de usuários em
seu primeiro ano e esse número foi multiplicado 100 vezes ao longo dos cinco
anos seguintes.
O serviço móvel de envio de texto e mensagens de voz WeChat
da China tem 300 milhões de usuários, mais do que toda a população adulta dos
Estados Unidos.
A adoção acelerada convida inovação acelerada. Em 2009, dois
anos após o lançamento do iPhone, os desenvolvedores já tinham criados cerca de
150.000 aplicações para o iPhone. Em 2014, esse número tinha atingido 1,2
milhões, e os usuários tinham baixado mais de 75 bilhões de aplicativos total,
mais de dez para cada pessoa no planeta.
Tão rápido quanto a inovação se multiplicou e se espalhou
nos últimos anos, a tecnologia está prestes a continuar mudando e crescendo a
uma velocidade exponencial além do poder da intuição humana para poder antecipar
tais mudanças.
O poder de processamento e conectividade são apenas parte da
história. O seu impacto é multiplicado pela revolução de dados, que coloca uma
quantidade sem precedentes de informações nas mãos dos consumidores e das
empresas, bem como a proliferação de tecnologia, como por exemplo, modelos de novos
negócios criados a partir de plataformas de varejo online como o Alibaba até
aplicativos como o Uber.
Graças a essas forças mutuamente ampliadas, mais e mais
pessoas vão desfrutar de uma idade de ouro de engenhocas, de comunicação
instantânea e de informações aparentemente sem limites.
Tecnologia oferece a promessa de progresso econômico de
bilhões de dólares em economias emergentes a uma velocidade que teria sido
impensável sem a Internet móvel.
Vinte anos atrás, menos de 3 por cento da população do mundo
tinha um telefone móvel; agora dois terços da população do mundo tem um celular,
e um terço de todos os seres humanos são capazes de comunicar na Internet.
A tecnologia permite que negócios, tais como WhatsApp comecem
e ganhem escala com velocidade impressionante usando pouco capital. Empreendedores
e start-ups agora frequentemente desfrutam de vantagens iguais a de grandes
empresas estabelecidas.
O ritmo furioso de adoção tecnológica e inovação está
encurtando o ciclo de vida das empresas e forçando os executivos a tomar
decisões e comprometer recursos muito mais rapidamente.
Terceira força.
Envelhecer não é o
que costumava ser: Respondendo aos desafios de um mundo em envelhecimento.
A terceira força é que a fertilidade está caindo e a população
do mundo envelhecendo de forma dramática.
O envelhecimento era evidente nas economias desenvolvidas,
por exemplo, o Japão e Rússia têm visto suas populações diminuir ao longo dos
anos, porém, agora, o déficit demográfico está se espalhando para a China e em
breve chegará a América Latina.
Pela primeira vez na história humana, o envelhecimento pode
significar que a população do planeta vai se estabilizar na maior parte do
mundo.
Trinta anos atrás, apenas uma pequena parte da população
mundial vivia em poucos países com taxas de fertilidade inferiores a 2,1 filhos
por mulher, que é a taxa necessária para substituir cada geração.
Mas agora, em 2013, cerca de 60 por cento da população
mundial vivia em países com taxas de fertilidade abaixo da taxa de reposição.
Esta é uma mudança radical.
A Comissão Europeia espera que, em 2060, a população da
Alemanha vai encolher em um quinto, e o número de pessoas em idade ativa vai
cair de 54 milhões em 2010 para 36 milhões em 2060, um nível que é previsto
para ser inferior ao da França.
A força de trabalho da China atingiu o pico em 2012. Esse
pico deve-se à política de desaceleração demográfica para aumento de rendada
população. Na Tailândia, a taxa de fertilidade caiu de 5 em 1970 para 1,4 hoje.
Uma força de trabalho menor colocará uma maior
responsabilidade na produtividade para o crescimento econômico e pode levar-nos
a repensar o potencial da economia. Cuidar de um grande número de idosos irá
colocar uma grande pressão sobre as finanças públicas.
Quarta força.
Comércio, Pessoas,
Finanças e Dados. Um aumento nas conexões globais.
A quarta força disruptiva é o grau crescente em que o mundo
está ligado através do comércio e através de movimentos de capitais, pessoas e
informações (dados e comunicação). É o que chamamos de fluxos.
Comércio e finanças têm sido parte da história globalização,
mas, nas últimas décadas, tem havido uma mudança significativa.
Em vez de uma série de linhas que ligam os principais
centros comerciais na Europa e América do Norte, o sistema de comércio global vem
se expandindo em uma complexa e intrincada rede pela Internet.
A Ásia está a tornar-se a maior região comercial do mundo.
Os fluxos Sul-Sul entre os mercados emergentes dobraram a sua participação no
comércio mundial durante a última década.
O volume de comércio entre a China e África aumentou de US$
9 bilhões em 2000 para US$ 211 bilhões em 2012. Os fluxos globais de capital
expandiram-se 25 vezes entre 1980 e 2007.
Mais de um bilhão de pessoas atravessaram as fronteiras em
2009, mais de cinco vezes o número em 1980.
O crescimento destes três tipos de conexões estabilizou-se durante
a recessão global de 2008 e vem recuperando apenas lentamente desde então.
Mas as ligações criadas pela tecnologia seguem sem
interrupções e com o aumento de velocidade, dando início a uma nova fase
dinâmica da globalização, criando oportunidades ímpares, e fomentando uma
volatilidade inesperada.
Reconstruindo a
intuição.
Essas quatro forças disruptivas reunidas, vem crescendo em
escala, e começaram, simultaneamente, a ter um impacto significativo sobre a economia
mundial por volta da virada do século 21.
Hoje, elas estão perturbando padrões há muito estabelecidos
em praticamente todos os mercados e todos os setores do mundo econômico, na
verdade, em todos os aspectos de nossas vidas.
Onde quer que olhemos, eles estão causando rupturas, rupturas,
ou simplesmente rupturas.
O fato de que todas as quatro forças estão agindo ao mesmo
tempo implica que o nosso mundo está mudando radicalmente em relação ao mundo em
que muitos de nós crescemos, prosperamos, e formamos as intuições que são tão
vitais para a nossa tomada de decisão.
Isto provoca graves erros em previsões e planos que foram
feitos simplesmente extrapolando a experiência recente para o futuro próximo ou
pior ainda para um futuro distante. Muitos dos pressupostos, tendências e
hábitos que existiam e eram confiáveis, de repente, perdeu muito de sua validade.
Nós nunca tivemos dados ou informações ao alcance de nossos
dedos, literalmente. O iPhone ou o Samsung Galaxy contém muito mais informações
e poder de processamento do que os supercomputadores antigos.
No entanto, nós trabalhamos em um mundo em que até, talvez
especialmente, analistas profissionais são rotineiramente pegos de surpresa. Isso
é em parte porque a intuição ainda sustenta grande parte da nossa tomada de
decisão.
Nossa intuição tem sido formada por um conjunto de
experiências e ideias sobre como as coisas funcionavam durante o tempo em que
as mudanças estavam começando ou eram previsíveis.
A globalização beneficiou a bem estabelecida e bem conectada
abertura dos novos mercados com relativa facilidade. O mercado de trabalho
funcionava de forma bastante confiável. Os preços dos recursos diminuíram. Mas não é assim que as coisas estão
funcionando agora, e não sabemos como vão funcionar no futuro.
Se olharmos para o mundo através de um espelho retrovisor e
tomar decisões com base na intuição construída sobre a nossa experiência que
apareceu nesse retrovisor, podemos errar desastrosamente. No novo mundo, os
executivos, os planejadores e os indivíduos precisam examinar a base de suas
intuições e corajosamente redefini-las se necessário. Isto é especialmente
verdade para as organizações que têm desfrutado de grande sucesso.
Vivemos em uma época cheia de oportunidades, porém profundamente
inquietante. Há uma grande quantidade de trabalho a ser feito.
Precisamos perceber que muito do que nós pensamos sobre como
o mundo funciona agora são ideias inadequadas. Ainda não entendemos como essas forças
disruptivas estão transformando a economia global. Não sabemos como identificar
as tendências de longo prazo. Não sabemos como desenvolver a coragem e a intuição
para estabelecer uma nova base intelectual e preparar para responder aos
desafios.
Essas lições se aplicam tanto para os planejadores como para
os executivos de negócios e o processo de reinicialização do nosso “sistema interno
de navegação” não pode demorar.
Há um imperativo urgente para se ajustar à essas novas
realidades.
No entanto, a engenhosidade, inventividade e imaginação da
raça humana tendem ser lenta para se adaptar à mudança. Há uma poderosa
tendência humana de querer que o futuro seja muito parecido com o passado
recente.
Revisar nossas suposições sobre o mundo em que vivemos, mas
não fazer nada, vai deixar muitos de nós altamente vulneráveis. Desenvolver uma
clara visão sobre como negociar as mudanças na paisagem dos negócios nos
ajudará a se preparar para ter sucesso.
Belíssimo resumo Roberto. Realmente, se os novos líderes não se adequarem à imprevisibilidade que se apresenta no mundo moderno, as organizações se perderão no Caos. O Caos por si só já insere uma energia criativa, porém, mister se faz desapegar do passado e adentrar no universo de possibilidades que ele apresenta. O maior diferencial competitivo para as futuras organizações está justamente no Capital Humano. Parabéns!
ResponderExcluirÉ um desafio. O mais difícil na atualidade é desenvolver a consciência para nos tornarmos melhores. Obrigado.
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